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E mesmo assim.
Escrito por nina às 22h20
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Seu olhar no meu é martelada estrondosa, sino, sina e sinal: dos que sei e nunca sei. Desperta a noite, e não durmo, nessas encruzilhadas de meu medo, de espera: desse ser sem ter- que sigo.
Escrito por nina às 19h25
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Aproxima mais de mim, anda aqui pra meus olhos admirados de espera em branco. Esta meia luz de seu esconderijo seduz minha solidão até o suspiro de agora. Vem me cercar, idéia. Vem conversar com a minha insônia, vem interessar meu cansaço em suas piruetas de sem-lógica até a maior hipnose, traz aqui a sua graça. Peço um relance de sua nudez. Num olhar seu com o meu eu já me transformo; me basta para iludir e ser assunto comigo mesma, de entreter. Joga adivinhações na minha cara e diz que eu nunca irei te entender, mas lança vestígios na sombra das horas vagas da noite. Me provoca até o abismo de sem soluções. Deixa eu ver meu anseio refletido na belo de sua máscara dos espelhos de confrontar suas partes todas. Rodopia em névoa os meus sentidos, cede aflição, injeta esta nos meus desmotivos e vazios. Me distrai e me atiça para ninar em um conto de embaralhar minha monotonia entre seus braços de reger fantasias. Desabrocha em mim, idéia, que aqui é muito quieto sem a sua presença, não te achanha com o meu implorar- que é desejo e fome. Mostra um sorriso dissimulado de me fazer imaginar como se termina com tudo, de todas as maneiras. E foge, não faz mal.
Escrito por nina às 01h03
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Todo momento vem de medo agudo, na espera que sua tensão desfaça e desprenda essa agulha em minha carne. Você que sustenta o botãozinho de fechar meu conteúdo mais secreto. Eu tenho medo de alfinete. Q´uessa invasão infincada que faz sangrar a realização do que é a verdade- tenho certeza que me perfura. Depois que o alfinete abre, eu sou. Eu quero ser. Mas ser cansa, ser dói. Parece que o alfinete mesmo me evita, apesar de sempre tentado em abrir. Ah, mas eu sei que ele é de aço! Eu danço cuidadosamente para sustentar o adiar de sua função de me acordar camada por camada. Meus Deus, alfinete, o que quer de mim? Olhando constantemente, sua armadilha e surpresa prestes a me cercar na unidimensão de um furo. Numa unicidade definidora. E mesmo que ele se perca nas vestes, nesse véu de tempo, espera para ser apenas pontual. Uma hora ele abre. E talvez apenas caia no chão sem eu perceber; estarei desarmada e nua em seu desajeitoso abandono. É quando viro nova dobradura outra vez, e apenas: recatar os panos sobre meu formato. Quando é que se revela? Quando é que as coisas vão enganchar feito fazer sentido...? O alfinete vai machucar é o destino, com sua precisão em ápice, e tudo se arremata em alguma certeza ao fim deste.
Escrito por nina às 22h15
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O cubo mágico se desfaz na tentativa do quase, e de lá não passa.Tudo que muito e quase sentido faz, logo se dissolve com travessura e brincadeira, bem quando aperto os olhos e concentro como se então fosse. As cores estão sempre fugindo, embaralham nas formas pixelizadas do indefinido, e o que era? Todos os pontos desconectam. Um cubo mágico recortado de nossa realidade e puxado desta antes mesmo de entendermos um pouco mais, e nossos braços não são nada dentro da dimensão abruptamente arrancada como massa concreta e estrondosa de destino. O meu tempo acabou, a graça dela se foi, e toda sensação é a de noite em claro.
Escrito por nina às 21h34
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Terreiro
Até eu que sou mais é pedaço de nada fico revirada como se fosse afronta. Desconfio. Eu que escrevo apenas canções arranhadas que cantam só folclore do meu mundo imaginado. E que só para mim serve: e eu lá vou ter essa pretensão de mandar e desmandar nos grandes personagens que já até têm pernas? Fico aqui, miudinha. Mando em nada e ninguém. E nem mesmo no meu sentir: eles desvivem de agenda. E nessa lua incerta que é o inspirar eu viro apenas maré. Que se escreve realmente se há o que sentir. Eu que vou cultivando sementes dos frutos das sementes dos frutos da minha rocinha de pensamento arado. Não é o solo mais rico, mas é aqui onde piso. Os ciclos que conheço, mas sempre redescubro. Vou entoando apenas o pouquinho que é meu, mundico. Do cenário que eu apenas reformo com algum material baratinho e fajuto, são montagens de reboco cada vez mais repetidas. Escrever não se faz ao ritmo do relógio de fora, aqui comigo é assim. Até eu, uma qualquer uma, fico nessa injúria danada que comove todo meu angustiar, nem sei se desdém, mas como é que pode?
Escrito por nina às 01h20
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Uma poça de água estalando a cada gota de chuva que cai também é um piano.
Escrito por nina às 00h29
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Pianista
Lampejo brotado em meus dedos, é você dançando valsa comigo. Sou fantoche orquestrado por ti, me domina no seu de repente apaixonado- eu estou cega, nem parece que sou eu mesma aqui. Quando minha existência esvazia de mim e é só a melodia pulsante. Por que todo o resto silencia e se esquece de dor, de peso- é o espanto de quando se é conduzido pelo corpo e pela alma, vai eu inteira. E eu flutuo; se minhas articulações estão: elas vão sendo pinçadas e acionadas no cada suspiro de sua batuta. Você está dentro de mim, e pede saída. Pois eu me rasgo, e no confete soprado de minhas ruínas surge você num espetáculo- tímido, por de trás de suas cortinas. Mas quero: beija meus sentidos, que em arrepios vão datilografando a nossa música, e você transborda através de mim. Eu te chamo. Quero sua fúria, a tempestade de todas as suas tristezas dominando cada gesto meu, para eu virar sua sinfonia mais bonita. E você me sussura que, no fundo, eu já sei mas é coisa adormecida. Me acorda, então, que estou pedindo. As minhas vísceras querem deixar seu grito sair desse enforcamento daqui dentro, onde o som existe e não existe. Me desamarra de toda linguagem, me desamarra que é pra eu fugir com você dentro da nossa balada. Traduz aos meus olhos o indescritível dentro das notas, dos trovejos, dos silêncios. Desdobra no seu papel e se apresenta, e liga os pontos dessa partitura comigo.
Escrito por nina às 00h23
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No breve
Eu nem posso piscar que o mundo vai entrar pelos meus olhos. Isso vai ser um pedaço bom do sertão dentro de mim. Desse sertão que não conheço e temo, passando estremecida diante. Esse que eu sei sentir nesse arrepio só. E os medos? São todos. Beirada de caminho de quedas dentro de quedas; um mapa que diz o que? Uns tesouros de buscar pra mim. Quero ver o céu derramar sua aquarela laranja, rosa e roxa na cidade. Os perfumes da amada, e seus becos por onde me leva de perdidamente apaixonado, cada um em cada um eu vou cambaleante- pois os segundos são todos de curiosidade e mistério e também são descoberta em tudo junto. O mundo está dentro dos meus olhos, junto dos medos e junto da sede. Sede de ficar bebendo mesmo com os olhos, de galopar entre minhas estradas internas no sacolejo da carroça de por fora, com o seu maior escuro de véu que também vai desvendar. Quando o sertão é dentro não tem que grito de ajuda. Como se eu já até soubesse que é morte. Aqui no meu fundo fica isso de sem-volta.
Escrito por nina às 18h19
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Que pode ser embaraçosa, essa nudez. Me coloco de pé, sobre as partes dignas e amassadas de meu vestido que nunca devia ter caído- estou desmanchada feito água no chão, junto dele. Vou cobrindo as partes e as inocências tolas, minhas mãos são pequenas demais. Que? se perderam no acaso de minhas distrações em belezas que passam planando - e eu míope até pelas feiúras. O que tento é recolocá-las num lugar onde não mais se fixarão. Busco me recolher deste desânimo esparramado, retomar o batom nos contornos da boca que inventei. Eu vou ficar corada pela última vez, e fechar este botão entre nós. E adeus.
Escrito por nina às 01h27
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Pio
Mesmo pousada em gaiola, a minha alma voa- é quando não tem ninguém olhando. Por que se está mirada, é tudo envidraçado e amarrado, eu existo da forma que me dão a dever. Só para mim: sou asas. No meu proprio engaiolado tempo, eu mergulho até nunca mais ter ar. Vou caindo pelas camadas de cheiro fresco, esse cheiro só da noite, de quem voa sem sair daqui mas é infinito. Vou inflando até sentir aquela coisa: como é existir. Nesse fecho em que vivo, o que se abre é o sobrepor de voar por dentro quando não por fora. E assim, pouco se entende sobre meu jeito de cantar. Estou desafinada entre ser o que se sonha e o não-ser. E se admira bem mais o que é, sei bem- e triste. Não há vento que me carregue o canto por muito tempo, não há um mesmo que entenda o gracejo vindo da melancolia por muitos sopros mais. E se mais de longe vem: maior é o conto do vento, mais eu canto e logo tudo vai passando pelas grades sem se agarrar por nelas.
Escrito por nina às 23h43
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e todo móbile é ilusão pairando como se fosse verdade
Escrito por nina às 16h53
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Móbile
Descansa o tempo entre nós, e eu me torno uma elipse cambaleante. Quais serão os pontos de aproximação desta rota inventada? Bambolê de espera lânguida, alcance frouxo de desejos ainda tão desencontrados. Miragens de caminhos pontilhados no céu que nos perde e desprende - ou será que prende mais? São cordas invisíveis que me fazem flutuar. E eu me perguntando de onde poeiras eu inventei fingir de estrela. Sopra um vento quente de destino, vento solar.
Escrito por nina às 16h51
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O que é um estado
Qualquer espaço é cadeia, é labirinto. Eu fico debatida contra os cenários de dentro e de fora, perambulante. As sensações não ficam, vão me iludindo e me perdendo de esquina em esquina dobrada dos meus anseios. Desgarradas. Sou alastrada pelo ar, cada suspiro derrete minha estrutura flutuante em sua rigidez fingida- suas repulsões e atrações. E se sabe. Por que surge um implorar de sem saber nem o quê, um passarinho sem canção cantando e um não sei de onde vem esse eco de vontades imprecisas. Se é de mim, sabe-se que resistir é a maior entrega, pois é apenas massa e buraco negro. Tamanha gravidade com que as coisas se aproximam: é no mais e mais, mesmo quando se começa num burburinho do não saber. Quando se menos espera, e a convergência violenta todas as promessas de seu espaço tempo de antes colidem em uma forma de ponto incerto. Queda livre e certeira. É quando sei ser ausência e presença, um cadê eu que reluta constantemente.
Escrito por nina às 23h30
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Eu mesma sou um estado de pipa: eu não sei muito bem dizer o que é o vento, se ele jamais me conta sua história completa. Vou onde tiver dança pra ele fazer em mim.
Escrito por nina às 16h36
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Um peão a girar vai dissolvendo seus detalhes pelos rodopios mais confusos e é nesta imprecisão toda que ele seduz. Ele ergue todo seu espaço teatralmente, nem nítido, nem sólido - e nem deixa de ser sólido. Eu acho que tenho disso: que se apaixona por tudo que dança indefinido em minhas idéias, que não consigo e dá medo. Quando se olha, e ainda é um mistério. Vai lembrar: não lembra. Precisava ver mais uma vez, e outra, e outra. E meu cambalear é também de peão: fincada em canto algum, nem mesmo por dentro de mim.
Escrito por nina às 16h33
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Acordeón
Eu me vesti de você e você de mim. Minha forma se transfigurou em suas dobraduras de soprar no primeiro resfolego que foi nosso. E agora meu corpo quer ser o seu; é que esqueci como se respira quando dançamos eu mais tu. Se eu fico sem ar é que você fez o mar brotar dos meus braços quando eu abri as ondas do fole. Sem eu nem saber nada, e você já me envolvendo toda- eu acabei que nem sei mais o que sou. Preciso ficar atenta, preciso ser silêncio e encostar o ouvido na sua alma, escutar o chiado mais fundo do seu lamento asmático e calar quando trovejas algum rancor. Entender se está triste e eu fico um nó e quando é festa no seu e no meu peito. Você, com seus botõezinhos de perdição confusa, e cada um é um sentimento que vai me contando a rouca história do mundo todo, destrava os baixos dos meus olhos. Parece que você vinha de dentro de mim, e vibrava a corda do meu mais fundo querer. E agora você só vai suspirar se for engasgado nos meus braços.
Escrito por nina às 20h32
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Quisera eu ser uma escritora. Mas não tenho os trejeitos que tanto preciso. Eu preciso de cabelos um tanto enfurecidos com ondas de mistério e de caimento de mulher elegante, por onde se vê um brinco de pérola. Mas meu cabelo é liso. Eu preciso de rugas e bolsas nos olhos, coisas de ângulos que farão toda luz recair em sombras profundas como devem ser as idéias que eu diria. Mas ainda sou jovem e sem expressão, sem o que contar de passado. As unhas longas e avermelhadas eu tenho, mas precisava maior destreza nas mãos: pois estas mulheres sabem dizer os contos, e muito dizem com gestos que para mim são vacilantes. Não tenho a voz profunda e rasgada e amargurada, cultivada em boas doses de whisky e tragadas de cigarro. Nunca tive as companhias de cigarro que elas tiveram, de confissões de penumbra, de amantes escritores, compositores e suas importâncias inimagináveis. Essa voz que é um blues conversado e rouco, ritmado em estalos espertos e ocos que o som de seus lábios – pintados no batom marcante – somente seus lábios, sabem fazer. Um nariz grande eu tenho, mas falta-lhe imponência e alma. Definitivamente este é um nariz sem alma. Me falta o perfume que todos se lembram, me falta aquele olhar que fisga com seu brilho de sagacidade, de quem irá ler suas fraquezas e em seguida arrancará seu coração com uma frase. Essas sim são escritoras e, se não nasceram escritoras, ou viraram águias ou onças. Seu modo emblemático e sua força indizível são o que me desmancham na possibilidade de escrever. Sou enorme e escancaradamente fajuta. Mas eu quero escrever, por mais que isso seja um grande desapontamento para todos. Eu quero escrever, e é por que eu tenho um vício inquietante. A minha alma é faminta, e quer caçar as outras almas. E é esta fome que move cada ciclo percorrido nesta existência, seja ela fajuta. Meus artifícios são para ser armadilha e pretendo colecionar, amar e devorar cada alma que eu puder.
Escrito por nina às 19h51
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indumentária
O feitio em casulo mais bordado - eu rasguei. Mais demorado de todos os meus trançados, promessa fio a fio de espera. E rasguei por que acredito no vôo. E senti cada fincada em corte feito na alma de minhas andanças de vento em corredor vazio: as minhas andanças de inventar. Já antes me culparam: ter mudado. O meu defeito é não ter um eu mesmo para sempre me apegar. Eu jamais deveria me prometer, ou me descrever pois está é minha maior mentira. Sou eu mesma platônica por definição. Num silêncio triste permeado em fé eu me deito, por que toda tristeza é muito boa quando se sabe transformá-la em tempo de se aprender. E tempo que é tempo é aquele que passa. E então repouso na paciência milimétrica e cristalizada de tempo que clica tic tac clica e o cabelo vai crescendo silencioso até que nos espanta no tamanho. Meu instinto de seda quer envolver e cuidar mas é quando eu me mato e recuso. O caminho é escuro, o meu corpo é novo e ainda não o sei andar. As mangas são grandes, tropeço nas pernas e balanço o tronco como um moinho. Me sinto um bambolê-peão-gorila-mola sou um desgovernado movimento dentro de desastres múltiplos. Não sei quando rir, quando chorar, estou imprórpia em mim mesma. Desastres: coisas que eu sei bem como fazer. E vou num trampolim de sons feios, e sentimentos pitorescos. Agonia orquestrada entre dúvidas de o que e como fazer. É a dor de ser assim escuridão cheia de nuvens e mistérios outra vez. Dor de ser a escuridão do outro. Quando a gente era perna um do outro e agora reaprende a ter trajetórias errantes e livres - orbitais. Um vestindo o redor do outro, carinho velado e distante, dessa beleza equilibrada entre as distancias silenciosas - sem colisões- e a atração massiva que nos mantém constantes em presença. Um espaço é paz.
Escrito por nina às 02h31
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Cobra do asfalto e Freud
Um filete de água vinha descendo a rua, atravessava a via. Dourava no sol, e serpenteava para mim. O pecado é meu molde, mas ele é flexível como este serpenteio aleatório. Quem foram essas mulheres que me flertaram com os ensinos de ser forte igual qualquer homem, ter voz e carregar nesta um sentido todo, próprio? Quem são essas crianças que brincaram comigo pra eu ser agora essa gente grande disforme? E quem eu mesma brinquei de ser esse tempo todo, o que está vestido em minhas calças? A minha curiosidade cede à gravidade na rua inclinada e feito água vai desbravando os caminhos potenciais. Eu só me interesso com o que está adiante, com a velocidade que não acompanha nunca o meu raciocínio, mais e mais. Será este o veneno e sina do meu ser? A cobra derramada no asfalto, quente como verdade. Ela sempre esteve aqui, me olhando, enroscada e constritora na minha essência. Minha natureza ofídica que é verdade, que é ameaça.
Escrito por nina às 19h43
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Meu feitio é este: nasci um operador.
Escrito por nina às 22h55
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Numa noite de obelisco, exercito minha solidão. As mãos são minhas, assim me dizem, mas a cada passo elas são seguradas. Deixa minhas mãos abrirem o caminho nos panos da névoa, sobrepostos. Eu quero saber quem eu sou: no começo era bicicleta sem rodinha e me jogavam na parede para eu aprender a freiar e decidir os caminhos eu mesma. Agora fico atada, e não é por mal, eu sei. Sei: a vez de soltar depende apenas do afrouxar dos meus dedos. Não sei se há violência neste puxão, mas parece que hoje tudo mudou. Eu vejo meu primeiro silêncio, ele é todo meu, e parece uma bolha de ar dentro dágua. Pode ser que todo este ar precioso pouco dure, tanto que preciso respirar. Dia simbolizado e marcado. Com coincidencias comparativas, do caminho, eu estou dentro de um espelho finalmente, e daqui não tenho saída. Eu me vejo, toda. Tudo especular, tudo especular. Penso nas minhas possibilidades. Lado a lado. São luvas de boxe que tenho em casa e um oponente crescente - força e contra-força são surpresas. É o peixinho morto e sufocado encontrado do lado de fora da minha janela. Fico imaginando se ele morreu tentando saltar de seu aquário. É perder o ponto do ônibus por que a alça da mochila se prendeu o tempo todo num certo gancho, uma luta doida e apressada: ver o lugar sumir contra o andar do tempo. Minhas ações todas engolidas num ventilador desesperado, contrário. É hora de mudanças. E elas têm sempre um cheiro característico, bem delas.
Escrito por nina às 23h43
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não-fabulosa
Pois fez-se uma vez de existir um jardineiro cego. De tanta dedicação para perceber suas obras do ofício, conhecia muito bem cada palmo do jardim, exceto um cantinho que ele sempre esquecia, por hábito, ou azar. Plantava sempre girassóis, todos repetidos e evidenciados pela rotina, no seu vai e vem tão periódico, tudo o cego dominava na rotina de suas flores. Era um belo jardim, que se repetia estação até estação. Certo dia, mais ou menos nessa época em que estamos agora, estava o cego aguando virtuosamente o jardim, e é ai que sente um sutil perfume, tão diferente! Seguiu por onde o vento guiava o cheiro, e rapidamente tudo se intensificou e clareou, todas as sensações fizeram um alvoroço. Tamanho êxito, por milagre ou explicação que for, sua vista foi de escuridão a névoa em poucos minutos, e em breve tudo era muito claro. A verdade é algo que dói e emociona, que nos faz sentir vergonha por toda tolice anterior. Tudo que o homem queria ver era aquela flor branca, delicada, perfeita. Queria olhar para aquela que enfeitara toda sua percepção, queria enfeitar todo seu redor. Oh flor imaculada! Correu sem perceber que pisoteara todos os girassóis, tomando ardentemente o regador. Regou a flor admirando que esta ainda desabrochara, ficando ainda mais linda que toda beleza que jamais imaginara. Surge então um passarinho negro e brilhoso, tão elegante, e se chamava Destino. E era porisso que voava tão confuso, mal se via o pássaro parado e com precisão. Disse com uma voz sussurrante, que "sempre esteve aí essa roseira, mas em todas as suas caminhadas se desviava antes de espetar um dedinho sequer em seu espinho". O homem, ainda regando a flor, percebe que toda sua natureza começa a se encolher, decaída. Morre a roseira em seus braços, vai amarelando e ressecando. Pois não é que se passaram décadas em um jardim vazio, o homem ficava velho, mas dia após dia regando o cantinho da roseira, que não ia mais voltar. Até que adormeceu, e era cego outra vez.
Escrito por nina às 21h28
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Meu medo do tempo perdura nas brevezas, nas lonjuras. O tempo que gosta de me sufocar nas pressas e palpitar em todas esperas. Vou considerando sua dimensão: cheia de perdas. Sorteadas por um caminho incerto, buscado no silêncio, no meu rodopio atrás de mim mesma, caçando angústias e derivando os erros que não quero repetir. A vida e suas não-linearidades, uns desencontros que pra mim vão ser o maior mistério, por uma boa porção emprestada de tempo, de distrações de caminho. Me pergunto se o encontro será apenas sonhado, mas não quero ouvir a resposta. Dessas distrações que me puxaram do caminho transverso e anti-entrópico que cerca meus desejos. É tamanha incerteza, essa nuvem que me carrega e tenta confortar como se que tudo passasse. Não existe possível recompensa dentre as curvas de tanta neblina, e nenhum movimento deverá ser feito aguardando esta. Mas é assim que se acorda todos os dias para o futuro: às cegas
Escrito por nina às 20h53
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Saturno
Eu queria ser a elipse que gira em torno dos seus pensamentos de bambolê. Orbitar no interessante de seu universo, cristal que brilha, que se afasta mas volta. Não há cálculo e razão que me tire da natureza de simplesmente me atrair sem negação. Sou mantida por toda fatalidade numa flutuação do redor, tenho dias de lua, dias de meteorito queimando irritadiço para atingir sua atmosfera. Mas a cada tentativa me despedaço, seu mecanismo cheio de decisão, e todo proibitivo. Até parece que não sabe, como funcionam as leis de Newton.
Escrito por nina às 22h00
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adiado
Minhas pernas acordaram hoje transfiguradas. Misturavam rodas de bicicleta de todo tamanho, ligadas por roldanas, dobradiças, fugas de toda mecânica possível. Eu continuo aqui existindo num reboliço dessas pernas de vontades que vêm e vão, aceleram depois travam- puro medo. Eu continuo sem direação, nessa intuição variável, flutuante. De sentir vontade de correr pra lá desgovernadamente, eu seria aquela traquitana alegre de fim do dia. Do jeito que era tão bom. Quase me desengreno das razões, e me deixo cair à natureza do potencial que é todo o sentimento. Rolamento livre que capturo antes de sua catastrofe, coisa de bola de neve.
Escrito por nina às 21h36
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Kombi do Rola-Moça
Lá colocada num berço de precipício. Todo silêncio e ferrugem, ali fadada. Quem passa e olha sou eu. Colocada no destino afixado, ela fica pradinha com suas ferragens amassadinhas e já comportadas, contorcidas ao gosto do acidente que deformou seu destino. Cresce um matagal que embaraça nela, feito como se fosse possível fingir que ali ela pertence. Mas o lugar dela é nas curvas e no vento. Todos passam admirados com a conformação violenta que se fez em tamanha queda. Mas logo se esquece. Eu ainda. Daqui do alto eu fico lá jogada com ela, não consigo ver se ela se partiu em dois. Parece que eu estava lá quando tudo rolou até a estabilidade de todos os seus dias. São as pancadas mais reais. Em meus sonhos não ia ficar assim, eu descia no vale das aceitações, me amarrava na Kombi e dava todas as minhas forças, a gente se subia juntas, desenferrujava, torna-se nova e sem deformidades. Seria daí uma coisa de fundir uma na outra, eu e ela íamos sair pra descobrir o mundo, que pra ele fomos feitas. Eu e meu nariz de Volkswagen.
Escrito por nina às 21h28
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Escola
Ela pegou emprestada a minha borracha. Ganhei o dia.
Escrito por nina às 00h42
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Pérolas de ar
As bolhas de sabão tão belas, ao redor desses dias pairados em gracejos. Toda tensão superficial desse mundo espelhado. Refletindo cores cintilantes, de naturalidade tão fluida. Eu vejo as mesmas cores de antes, ainda com as mesmas certezas. Mas são só as imagens em minha retina, talvez ela seja tão curva que mude toda a realidade. Mas a bolha paira tridimensional, provocativa. E eu bem sei que o sabão se sustenta com essa malícia escorregadia. Tento não me enganar. Bolhas são felicidades ilusórias. O flutuante anseio de meus olhos, brilha. Preciso ter todo cuidado com este origami de moléculas tão delicado no ar. São quebráveis ao menor toque, um precipício de respingos gelados em minha cara.
Escrito por nina às 00h40
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garotinha
Sou pessoa minúscula, acredito nas menores vírgulas. O tempo é feito de meus pequenos botões, colecionados, achados. Eu sonhando ao superpor um grande amor a cada grãozinho de nada que eu cato, expandindo o pequeno no significativo.São artefatos só meus, são verdades só minhas e de mais ninguém, e não questiono se estou ou não inventando. Viver de fantasia, isso sou eu. Eu guardo o que sentir mesmo com o nada, o senti, é meu. Eu vou viver alimentada do imaginado só por mim e é. É bordado nesses pontinhos complexos que só o crochê de minha imaginação trança. Eu voltei a ser pequenininha e dos cabelos curtos. Eu retornei ao meu estado de encanto de um olhar de poucos segundos, de guardar esses momentos no meu saco de o que pensar antes de dormir. Os pequenos olhares que viraram a minha maior felicidade do mundo. De conviver com o nada, mas com a magia de haver significados maiores em torno de tudo. Eu tive que encolher pra meu sofrimento encolher junto. Reduzir de mulher a menina. Eu voltei a ser simples. Voltei a tremer com o simples contato de segundos acidentais, agora eles são inéditos. É uma vida platônica que me dedica à paciência, presença atenta. O prazer dos serás. Os serás os quês dos gestos que desprendem no meu redor. Não vou mais querer que tudo passe de uma vez. Me contento com o aparente vazio de cada dia novamente. Acompanhando o silêncio, é assim o amor. Não consigo forçar a manivela do tempo por uma alegria renovada e eufórica. Minha sombra então me prometeu, - calma garotinha. É como o cabelo que se deseja já longo da noite para o dia. Não vai adiantar querer que as coisas logo mudem. Um dia virá, e será feito surpresa. O tempo se soma. E já. Jajá. O seu cabelo estará longo outra vez, e será bem quando tudo terá terminado bem.
Escrito por nina às 02h32
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O calendário arrastado
Um caramujo e um chapéu: eu desenhei sem saber um motivo, e eles rodeavam sábado e domingo coloridos. Seguindo uma vida sensível a sol, sal e açúcar. Eu sou de plástico.
Escrito por nina às 00h27
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Magmática
Os sentimentos que seriam farelos, me moldam:sedimentos. Pois eu vou me despindo em lava, tudo por dentro queima e pressuriza. Toda dor arde e explode pela superfície vulcânica do meu existir. Eu desmanchei ardente e óbvia, latejando nas cores mais alaranjadas, nos sinais mais flamejantes e radiantes. Vai derramando descontroladamente, eu exposta ao avesso. Essa força que racha a gente no meio. Mas há de enegrecer e resfriar por fora. Se me é dito que o tempo me resfriará as quenturas, pois entendo que só por fora. Há de se fazer a placa tenaz de aparência indiferente. Tudo será estável e convivível pelo lado de fora. Mas dentro tudo revolve em um inferno aprisionado.
Escrito por nina às 23h30
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Dentro de mim, toda festa possível é de algodão doce.
Escrito por nina às 19h49
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Coerência
Eu viro um silêncio. Eu viro um desincômodo, eu viro a maior doação que eu poderia jamais dar que é não sofrer. Eu tinha direito de sofrer, e sou até boa nisso. Pois dessa vez foi a maior vez, eu me sei bem. Toda a força que tenho para não sofrer e não incomodar é toda a força transferida do meu sentimento.
Escrito por nina às 20h05
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...
Mas comigo o vento não é ingrato, eu acho que ele me gosta. E conversa também, quando mistura idéias nos meus cabelos. Eu fiquei tão azul e concreta quanto os prédios que entardeciam contra o mesmo vento, aquele que banhava de coragem a minha marcha de descida. Um corredor de notícias. Como se ele manchasse um furacão em meus olhos, espalhando tudo aquilo para longe. O vento sabe bem como varrer as pessoas como eu. É a primeira vez que ele me trata assim, de balançar. Me carregando, e me dizendo pra ser tão como ele. Sempre presente, mas invisível, mas digno, mas prestes a fazer um grande movimento. De saber ser brincador elegante. Mas agora sou barco à vela, transbordado de espera, eu não sei se chego mais em terra alguma. A verdade é a espera de...nada. A deriva faz um horizonte calmo, não é naufrágio. E mesmo que tédio, eu fico aguardando o mesmo da outra vez: a virada do acaso com um novo rumo de certo tempo. O vento não me espalha, ele me recolhe do chão.
Escrito por nina às 19h47
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(vazio)
Quem é que vai te abraçar agora? Só se for o vento frio.
Escrito por nina às 00h42
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Bruxa
Olha bem, pequena, olha bem o reflexo desta colher enferrujada. Por que você já era, agora. Esse restinho de beleza que você pensa que tem -aiaiai que enganação- escorreu todo dessa cara patética pintada. Vai te despir da moldura de beijos que te faziam crer que era tudo uma poesia vestida em seu corpo. Veste então uma vergonha esburacada e maltrapilha. Sua brincadeira encantada teve fim, e agora te dou apenas essas migalhas, contando todas dá 5. Nessa cela a sua comida é fração. Ainda vai ter gosto, mas que se perde e mingua. Dente por dente vai perder. Vou raspar essa sua cabeça suja, dos piolhos imorais, e negarei parte por parte de sua carne nefasta existida. Não existe mais forma, só idéias. Te esquece, que nada foi, jamais foi. Arranca cílios, repele unhas, te acaba, sem graça. Nem pra janta tu faz um bom sal. Ou não! Então não olha não nessa colher da sopa de rímel que você chorou. Que ainda mais interessante será, e meu prazer é assistir mais uma queda possível. E se ilude, vá, que nem será assim de tão ruim tamanho. Finge que ao menos o ao menos terá. Acredita que isso é o que dura, que no fim nada demais se perde e que sempre haverá tal, independente de qualquer coisa. Vai dançando, rodopia embriagada de esperança pedante. Deixa que eu conto as migalhas. Sonhe, sonhe agora... E acordará depois, não mais mulher.
Escrito por nina às 00h39
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Cavalgada
O tempo vai me carregar feito um cavalo galopante. O tempo fica feliz correndo feito vento. Eu mole, no lombo do tempo, do ritmo batendo com as ferraduras urgentes. Dói ainda, cada rebatida que dá no meu corpo surrado. Mas já me aprumo, pego rédeas e domo as patadas de destino. E pego e fujo.
Escrito por nina às 21h59
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Desarmada
O pior dia de todos. Tentou esmaecer meus últimos ânimos, mas eu gosto mesmo é de vingança. Eu vou mostrar pra esse dia de hoje que eu nasci mesmo pra inventar tudo o que eu sou. Tudo bem que desta vez será uma personagem daquele branco triste e casto de quem vai esperar naquele mesmo horizonte vazio por um tema de saudade. Todos os dias. Mas será também a força de um dos três homens em conflito, com camadas e camadas de pele e dureza impenetrável. Forte. Implacável, mas por dentro ele quer aquela que nunca pôde ter. Mas quem é mesmo que vai saber? Ninguém. Eu vou viver no meu deserto. Agora que perdi as belezas de se admirar, me resta o deserto. E vou aprender a amar o deserto. Pois hoje eu vou chorar até depenar meus medos e esvaziar meu espírito de sua dor jorrada que contive. Será aquele espetáculo catastrófico de tristezas. Uma grande tempestade lacrimosa. E vou dormir até me esquecer de mim mesma, vou dormir aquela eternidade hibernante de renovação. Vou deixar de existir até que eu colapse num ponto tão concentrado que novamente explodirá feito criação. Um novo caos. Lá vou eu, com meu discurso refeito. Esse discurso de esperança tão patética. Um cavaleiro de armadura brilhosa. Mas cavaleiro inexistente. Pois meu discurso de mentirinha vai então me fantasiar. E eu vou fingir tão bem que até mesmo eu me darei crédito. Mesmo agora em que eu estou despida de capacidade e com o mínimo de vontade. Já me vou. A grande vontade é de viver o nada, pois já não se pode viver o tudo. Montada nos meus novos estribos de vento, eu saio voando, esboçando um sei lá o que de continuidade arrastada. Só sigo de curiosa, mesmo.
Escrito por nina às 21h55
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outra madrugada só.
O cansaço é embriagante, delira meus pensamentos em queda, em redemoinho. Eu mal enxergo essa pedra gigante, moída na névoa entre meus braços que tateiam. Traciono minhas vontades fantasmagóricas contra um piso delicado e escorregadio. A pedra não se move. Ah, os caminhos que eu tomei... Saudades da minha fuga predileta!
Escrito por nina às 01h41
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Agulha
Mais uma bolha de idéias indefinidas, fermentando brutalmente. É minha sétima gravidez em doze meses. São essas coisas que me brotam e me redefinem, mas que há? Nunca sei o que virá, me angustio nos dias de barriga. A barriga revolve, contorcida em sua dúvida visceral de construção em um novo auto-retrato. Eu me queria feito agulha, despontar de vez uma só, impactante e não mais moldável. Mas que há em mim que eu sou uma fumaça desesperada em se transformar?- mas como cansa. E tem vez que não é o meu desespero. Agora é pura seleção natural, ô bicho que sou. Esse mostro particular do meu espelho. Mas sobreviver as vezes é um instinto morno. Aqui é só para mim. Assim como aquelas noites que só eu sei. E só para mim ficam todas as premonições malditas, todas as dores futuras encolhidas dentro do canto do meu olho. O canto mais maquiado. Bonequinha russa vai abrindo e parindo, até ser miudeza sem cara e sem forma. Desgaste. Eu não sei o que vai ser depois. O que vai me movimentar. As vezes parece que nada vai. Sete é um número de certa quantidade. Soa como um prazo final. Espero o momento em que todas as novas condições vão me forçar num colapso. Condição despejada. Baque: o tempo chuta. E me manda mudar. Eu sinto cada fibra rasgada de uma vassoura me tirando de algum lugar que eu pensava estar. Fico curiosa com que nariz e boca vão surgir quando eu puxar do meu saco de badulaques de mim mesma. Não sei se eu vou apenas desbotar. Mas é um ovo dentro de outro. E curiosidade aflita. Eu, encolhida dentro desta sétima gravidez. Talvez nem haja mais tanta dor, são lágrimas tão comuns, até me canso. Mas eu não queria secar.
Escrito por nina às 19h50
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Escrito por nina às 21h24
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Aí.
Meia dor, aomenos, me dê. Pois sei que não há direito meu de lhe roubar e catalisar toda dor que é tão sua, no zelo de suas saudades. Mas como é que pode ser que eu veja seu desmanchar, o seu olhar tremer e toda sua postura admirável desmoronar- sem nada fazer? Daí eu peço:meia dor. Pois sei que eu não posso me apoderar de todos os cuidados que irão te envolver, mas eu quero ser uma luz que não se apaga. Que então: quando faltar um caminho, e mesmo quando não houver idéias e forças, eu seja suas pernas. Ou um rio calmo em que você flutue. Eu queria ser uma canoa pra te ninar nessa escuridão. Eu quero tintilar palavras de água corrente e bambu no vento. Eu quero engarrafar a paz num frasquinho colorido que você possa levar contra toda sede que houver. E ela terá o seu sabor favorito também. E até posso embrulhar para ti aquelas nuvens mais bonitas que nos dão esperança gratuita. E elas serão nuvens comestíveis, como o conforto de um brownie. Eu vou criar aquela máquina que deixa lento o bom momento, e instantâneo aquele ruim. E quero ser as garras que não deixam você escorregar. Eu posso me transformar em todo um circo quando for pra te entreter, fazendo os olhos mais risonhos. Eu posso ser o silêncio absoluto e respeitoso para seus pensamentos se crescerem, ser uma sutileza que faz companhia. Ou então a gente pode gritar juntos, pro nada, no topo do mundo. E gritar qualquer coisa. E se fosse permitido, não haveria despedida. Eu quero que meu abraço tenha a envergadura de asas que te levem onde você escolher. E eu sei que mesmo eu colecionando várias belezas para expor às suas emoções, uma delas vai parecer que não encontramos. Mas ali e acolá você vai entrever essa beleza brincando de se esconder entre detalhes de coisas e memórias picotadas que invadem por acaso, de surpresa. Jajá. Haverão ainda aqueles relances coloridos. Tudo vai melhorar.
Escrito por nina às 22h18
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Esse
Se eu sempre tivesse, desgastava Se eu sempre te visse, desgostava Pois no quando pudesse, degustava Pois no quando eu soubesse, parava Mas é o vício.
Escrito por nina às 23h28
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Divergência
Eu poderia ser tão previsível como antes. Eu poderia ser tão previsível como pareço. Perdi o limite.
Escrito por nina às 23h05
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Baú
O baú me olha com seu olhar de fechadura. Mas eu me sinto diante dele, sem desfecho. Eu era tão curiosa... Perdi a chave de mim.
Escrito por nina às 22h59
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Veludo
Veio seu toque me marcando, me invertendo e moldando. Eu dançava em cada parte que seu carinho reinava, e meus traços iam se delineando nas pontas de seus dedos. Meu esboço de desejos sendo desenhado e reforçado com cada movimento. Que envolvente era, quando a minha textura te aconchegava em delícias, e eu recaía sobre cada curva que você era. A gente se encaixou nessa fluidez aveludada. Como deve ser apenas: pois a ação e reação se tecem e alinhavam os panos apenas do que é espontâneo. E bastava que nosso contato existisse que minhas linhas iam seguir as suas. Um requintado gesto de memória perturba minha pele. Tudo é remanescente e me faz em ondas de arrepio. Vai lembrando de cada tremor, e eu me repuxo e vou deslizando em camadas lânguidas, o som oco de estar aqui num abafado tempo de estar sem seu estar. Alguma impaciência me dobra em largas faixas de humor mofento, e os dias vão removendo seu perfume de mim. E eu até me despedaçaria, dava nó, torcia..torcia..torcia...Parece que me rasgou as vontades: agora já sou várias delas. Vou me desbotando de ti, e vou virar esta aspereza toda até que novamente o seu tato me redefina em mimos.
Escrito por nina às 23h59
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Tudo que é gratuito - Presente
Se é que eu era de vidro bem baratinho, que no começo brilha e parece diamante. Se é que eu era parecida inquebrável, mas agora me avisam que eu me cuide mais, pois parece que qualquer esbarrão que me estilhaça. Se é que eu fui me ofuscando e borrando rápido no tempo, graça nenhuma mais tem. Se é que virei uma porcaria de camelô, tudo ao se descobrir algum defeito que a etiqueta de preço cobriu antes. Se é que até a estante se enjoou de mim, e num jornal eu fico embrulhada no escuro, entre esperanças de notícias velhas. Se é que é um desprezo sem tamanho, bem grande, mas também sem culpa. Me jogue no chão.
Escrito por nina às 19h58
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Isolamento
Ela se debruça nos classificados, esparramando uma fina esperança entre as linhas apertadinhas que exigem conhecimentos meramente burocráticos e tão desinteressantes...O requisito de excel básico consegue por tabela esmagar sua sensação de significância conquistada com cada dia de um esforço que pareceu, então, uma dificuldade fantasiosa, de brincadeirinha. Se pergunta como é que uma folha de anúncios tão pequeninos pode desmantelar assim seu valor. É daqueles enfeites que não é útil em casa alguma. Circula indecisa feito um algo apenas, mal querido. Não sabe onde vai colocar suas características para trabalhar e sustentar seus dias. Uma torta cá, um desenho lá, tudo muito divertido. Mas são as meras componentes de um ninguém. Mas era pra isso que queria mesmo servir, pra ver e enfeitar o mundo. Onde que se anuncia tal força de trabalho, com que nome? Não vai ter lugar nenhum, pois então tenta se encolher como num barquinho naufragante, como se contasse o tempo que resta, a salvo. A ansiedade se dá como se o último suspiro fosse já. Como se soubesse de uma guilhotina no caminho. Que faz um fim, ou um começo de improviso desordenado, destino faceiro. Que outras características mais ela foi inventar de construir em sua grande alegoria como pessoa? São tantas esculturas que derretem. O que vai querer virar, então?
Escrito por nina às 21h37
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Eu me viro
Aí eu caio. Caio por dentro, em caquinhos e confetes desmanchados. Ou então parece que meu tórax é um revirado de penas coloridas e frágeis, coisa de redemoinho meio engasgado. Por quê que tremo tanto?, que hora é essa de perder as mãos, feito elas fossem passarinhos apavorados de imagem repicada - tão aflitas. Nem sei no que me seguro, pois são cenários virando e entornando suas cores sobre minha realidade esvaziada, de medo. Medo imprevisível, mas esperado. Buraco que eu mesma furei e enfeitei. Serpentinas repentinas. Mas aí que me reviro em fera, como se fosse possível saltar um leão faminto do interior de dois passarinhos, faço de cada sentimento perdido uma garra afiada e vou daquele avesso de todo meu comportamento, caçar... Me rodeio em nós de desejo dentro desta jaula, de sede afogada. Fábula de brinquedo, eu vou encenando cada etapa em sua efemeridade. Com luvas brancas disfarço os gestos, como se houvesse pudor. Sou um pó que forma figuras bonitas, até que me soprem pra longe, desaparecida. Tinta guache lavada é o choro das imagens que fiz. Meu nariz de palhaço é arrancado com deboche, sem mais. Mas vim aqui encenar sem saber se vivo. Sabendo apenas que irão acabar comigo, tão em breve. Fica este pedaço de tristeza, por dentro. Pois minha forma se muda, mas todos sentimentos São. Dramas que desfazem, refazem, vão me desbotando. São reais - com eles não me chamo ilusionista. Eu me sinto a mágica que sai da cartola inúmeras vezes. Já vejo o cansaço em sua admiração. O picadeiro me cerca, as luzes evidenciam a maquiagem borrada de suor. Eu queria brilhar naqueles olhos que piscam e se vão e se vão e se vão. No fim da fábula eu sou um bobo ratinho. Curioso e cego, sem poder algum. Sem ter asas como os passarinhos do início, fico atada com minhas perninhas miúdas, quase como se eu fosse uma mentira. Fazendo gracejos de desespero, peço por mais. Eu sou tão ridícula Antes de sumir, eu sou uma gota de mercúrio sujeita à um lenço brilhoso e dinâmico. Sou partida, sou reunida, rolada. Jogada até, no desgoverno. Ou de fato, por ser governada em suas curvaturas complexas e variadas. Tem quem leia minhas equações. Dependendo do meu tanto, é como se eu quisesse ser venenosa. Mas apenas como se fosse, pois minha necessidade é pelo encanto. Não sou muito boa com essas coisas de medida, parece que tudo se estraga em minha presença, Hora ou Outra. Novamente errei a mágica. É daí que viro um elemento básico, sem gosto. Fecha a cortina, e minha chance se cancela. Já virei de tudo para convencer meu público a ficar mais. Fui tudo, mas eu queria ser a única.
Escrito por nina às 23h11
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